'Nem água nem R$ 15 mil', lamenta agricultor que contraiu dívida e encontrou possível petróleo no Ceará
Busca por água gera dívida para agricultor que encontrou possível petróleo ao furar poço O agricultor Sidrônio Moreira, que encontrou uma possível jazida...
Busca por água gera dívida para agricultor que encontrou possível petróleo ao furar poço O agricultor Sidrônio Moreira, que encontrou uma possível jazida de petróleo em Tabuleiro do Norte (CE), não tinha intenção de achar o líquido. O seu objetivo inicial era encontrar água. Por isso, ele decidiu fazer um empréstimo de R$ 15 mil para perfurar dois poços artesianos no sítio onde mora. No entanto, encontrou apenas um líquido denso, preto, com cheiro de combustível. Este imbróglio, no entanto, está longe de terminar. A família, que não tem acesso a água encanada em casa - e, por isso, depende de adutora e carros-pipa - espera um laudo definitivo da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para saber do que se trata o material estranho achado no quintal. LEIA TAMBÉM: Entenda se agricultor cearense que encontrou possível petróleo pode lucrar com achado Agricultor que encontrou possível petróleo no CE deve isolar poço enquanto aguarda laudo Agricultor Sidrônio Moreira furou poço em busca de água, mas encontrou óleo que pode ser petróleo. Marcelo Andrade/IFCE Falta de água e dívida Ao g1, Sidrônio conta que pensou em perfurar os poços artesianos para tentar sanar um problema antigo que afeta a região. A ideia era "ficar sossegado", mas, depois da possível descoberta de petróleo, o agricultou deve isolar as áreas das perfurações e evitar contato com o líquido preto. A dívida continua: "Eu disse: 'Mulher, vamos fazer esse empréstimo pra furar esse poço'. Fizemos, fiquei animado, mas agora nem água e nem os R$ 15 mil. A gente se aperreia, né?! Meu pensamento era pegar o dinheiro, fazer esse poço (...), ficar sossegado. Mas, não deu. Vamos esperar por Deus, quem sabe não melhora?", lamentou. Sidrônio e a esposa, Maria Luciene, vivem com dois filhos no Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 km do centro de Tabuleiro do Norte. Sem acesso à água encanada, a família depende de adutora e carros-pipa para o abastecimento. A renda vem das aposentadorias do casal e da venda de animais, feijão e milho. A família depende de uma adutora da região e carros-pipa para ter água em casa. Na foto está Maria Luciene, agricultora de 58 anos. Gabriela Feitosa/g1 Depois do empréstimo, eles ficaram com as finanças comprometidas. Enquanto esperam uma resposta definitiva da ANP, Sidrônio não pode mais perfurar poços, e o problema da água continua. O caso começou em novembro de 2024, mas só neste ano a ANP visitou o local pela primeira vez. O vice-prefeito de Tabuleiro do Norte, Antério Fernandes, afirmou que uma nova adutora - uma espécie de tubulação subterrânea criada para transportar grande volume de água - está sendo construída na zona rural da cidade e deve atender mais de 700 famílias. Uma delas é a família de Sidrônio e Luciene. O prazo para a construção é o fim deste mês de março. A família não faz planos caso o líquido "estranho" encontrado no terreno seja mesmo petróleo. Em relação a isso, eles preferem "manter os pés no chão", como relatou ao g1 o filho de Sidrônio, Sidnei Moreira: "A gente trabalha bastante com os pés no chão. A gente não sabe ainda o que é, se vai ser possível explorar esse material, a gente ainda não tem essa noção. E a gente vai continuar com a nossa vida normal no campo mesmo, porque nunca foi nossa intenção achar petróleo, sempre foi achar água". Mãe e filho observam área em que segundo poço artesiano foi perfurado. Gabriela Feitosa/g1 Caso seja confirmado, o agricultor poderá 'lucrar'? A resposta é complexa. Conforme os técnicos da ANP relataram ao g1, o agricultor não será dono do petróleo, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo o petróleo e o gás, são de propriedade e monopólio da União. No entanto, Sidrônio poderá ter um retorno financeiro caso a área passe por um processo de exploração e produção comercial no futuro. Dessa maneira, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual do lucro. ➡️Mas, atenção: primeiro a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia, já que outros achados parecidos foram descartados por serem acúmulos pequenos. Infográfico - Possível descoberta de petróleo registrada em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. Arte/g1 Esse repasse financeiro, garantido por lei, pode chegar a até 1%, dependendo de vários fatores que precisarão ser avaliados. Em resumo, embora o agricultor não tenha a titularidade sobre o recurso e não possa vendê-lo por conta própria, ele tem o direito de receber essa compensação financeira caso a extração comercial se concretize. Relembre o caso A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024 enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento de animais da sua propriedade, na localidade de Sítio Santo Estevão. Vídeo mostra momento em que agricultor encontra possível poço de petróleo ao perfurar solo Um vídeo gravado pela família em novembro de 2024 mostra o momento em que Sidrônio e a equipe contratada furam o primeiro poço. Em determinado momento, um líquido escuro emerge do buraco e o agricultor chega a comemorar, pensando se tratar de água. Semanas mais tarde, porém, a família descobriu que o líquido pode ser petróleo. 📍Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região é contemplada pela Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas desde então a agência não havia respondido. Somente no dia 25 de fevereiro deste ano, o órgão se manifestou, respondendo a um pedido de informação do g1. Mesmo que o petróleo seja confirmado, o agricultor não poderá comercializar o combustível, uma vez que, no Brasil, riquezas encontradas no subsolo pertencem à União. Conforme a legislação brasileira, a ANP deverá confirmar se a substância é de fato petróleo; mesmo se for confirmado, o dono do terreno não poderá extrair nem vender o combustível. Equipe da ANP levou amostra colhida pelo IFCE para analisar. Divulgação/IFCE Assista aos vídeos mais do Ceará: